1.10.07

Série "Internacionalismo é" III

Nos comentários:

"É que no livro que li, o que mais há são profissões de fé no isolacionismo. Há até [até!] um capitulo chamado "Noninterventionist Foreign Policy" "By what authority does any country interfere in the internal affairs of another? ", pergunta Ron Paul. Sim, porque carga de água se há-de interferir nos assuntos internos da Birmânia, Kuwait, Darfur, etc,etc? Não é do interesse americano tentar fazer vingar um espaço democratico e liberal?"

Nota: Democratas-liberais. Fico desarmado. "Porque carga de água!" Porque será realmente? São sinceros e bem intencionados. Têm muito de esquerda e eu não vejo grande mal em si (esquerda). Mas na sua confiança em sistemas sociais e no uso da força revolucionária para os moldar..e para o diabo com o Estado-Nação... É mesmo o que o Diabo precisa para trazer o inferno à terra. Tal como Woodrow Wilson na Grande Guerra. Hoje é pior. Na altura ainda assim eram a Esquerda. Hoje é a Direita. De facto, o pessimismo reside agora só com os "paleos". Tirando esses, somos todos ... bem, nem sei bem...está tudo misturado.

7 comentários:

O-Lidador disse...

Meu caro, em relações internacionais, o “realismo” é uma doutrina que considera que os estados devem agir apenas por interesses e que as relações de poder se regem pela mecânica da carambola, sendo negligíveis as considerações sobre a idiossincrasia das sociedades, o modo como se organizam e como se vêm a si próprias e ao outros.
A China é o exemplo actual deste tipo de "realismo" em sentido estrito.

Tb nos EUA, e na Europa muita gente acha que o comportamento “idealista” em que parece assentar a actual política externa americana, está errado.
Pensam estes “realistas” que só o realismo trará a paz, especialmente se forem os EUA a agir de acordo com essa escola.

Infelizmente a realidade nunca cumpre as expectativas dos altos ideais dos alados habitantes de estratosfera.

A memória histórica prende-nos a factos brutais: no período áureo do realismo, não houve um único dia em que não estivesse a decorrer algures uma guerra (Coreia, Vietname, Israelo-árabes, Afeganistão, África, Irão-Iraque, Falkland, Nicarágua, etc.) A ordem realista não impediu o terrorismo esquerdista na Europa nem a ameaça de aniquilação total que pendia sobre a humanidade. Também não impediu uma implacável corrida às armas, e o crescimento, bem antes de existir o pretexto “Estado de Israel”, da ideologia que sustenta o chamado renascimento islâmico e que constitui o alimento espiritual do terrorismo islâmico

Em matéria de guerras e conflitos, na verdade pouco mudou, excepto o facto de que agora morre menos gente e não se coloca a ameaça de aniquilação total, uma vez que o “Império”, na equívoca designação da esquerda, já demonstrou que não usará o poder nuclear de forma leviana (e demonstrou-o numa situação limite, quando era monopolista da bomba e se viu à beira da derrota na Guerra da Coreia) e os seus opositores não tem hoje ainda capacidade para o fazer.

Vistas as coisas com alguma frieza, a ordem idealista parece portanto ter alguns méritos e estes são ainda mais evidentes para aqueles que, como nós, partilham o espaço civilizacional da hiperpotência.

No caso do Iraque, estes realistas strito senso, consideram que a tentativa de os EUA “exportarem” a democracia, é uma posição “idealista”, e rejeitam-na.

Ora a verdade é que há uma forte correlação entre a democracia liberal e oportunidades de paz no SI, e Fukuyama demonstrou que as democracias liberais tendem a não se guerrear entre si pelo que, em teoria, se a democracia liberal se alargar a espaços cada vez maiores, diminuirão as probabilidades de guerra no SI.

Além disso a democracia foi “exportada” à força para a Alemanha e para o Japão, e a verdade é que se logrou a transformação de duas milenares nações guerreiras em democracias bem sucedidas que não parecem especialmente vocacionadas para se envolverem em guerras de expansão num futuro próximo.

Faz pois bastante sentido fundar uma estratégia na noção de que alargar o espaço democrático é do interesse dos EUA (e também nosso) e é racional que um país como os EUA, duramente golpeado em função do anterior “status quo” entenda que ele não lhe serve e tente aproveitar o poder que num determinado momento acredita possuir para o alterar.

Durante o processo que desembocou na invasão do Iraque, Bush disse que ” um Iraque livre poderá mostrar o poder da liberdade para transformar aquela região vital”.

Ao pretenderem expressamente democratizar o arco islâmico, os americanos não estão a ser motivados por românticos messianismos democráticos, mas a tentar levar à prática uma visão que, se bem sucedida, fará evoluir a região para paradigmas susceptíveis de secar as raízes culturais e políticas do terrorismo islâmico, contribuindo para um SI mais pacífico, numa zona vital para a economia mundial
Estão a PROSSEGUIR OS SEUS INTERESSES.


Claro que esta estratégia pode falhar. Os EUA não são omnipotentes E muita gente, parece deliciar-se com a perspectiva. O que é pouco “realista” porque se isso acontecer, não se pode razoavelmente concluir que os nossos interesses fiquem melhor defendidos.

Por outro lado, a ideologia que suporta o terrorismo islâmico depende menos do que os americanos fazem (as políticas) do que aquilo que são (os valores). Os responsáveis da Al-Qaeda dizem-no claramente nas múltiplas exortações à “Umma”, e são também meridianamente claros na ideia de que nomear os EUA como inimigo universal e exterior é uma estratégia que visa cimentar a união entre os diversos grupos que dela se reclamam subsidiários e que têm, quase todos eles, agendas nacionais próprias, pelas quais se poderiam chocar entre si.

Os realistas retintos, por vezes balançam entre conceitos.

Por um lado entendem que as políticas do “império” catalizam o terrorismo, por outro acham que a luta contra o terrorismo deve ser ideológica e não militar.

Emerge daqui uma fundamental contradição que os realistas têm claras dificuldades em superar

Se se entende que o fenómeno do islamismo se deve combater à “la longue” principalmente no campo das ideias, lutando pela conquista dos “corações e das mentes”, então não se deviam condenar como “idealistas” as estratégias que visam exportar a ideia de "democracia" para que ela ocupe o lugar das ideias radicais islâmicas.

Não se pode combater uma ideia sem ser com outra ideia.

Porque se se achar que não é possível, e que todos os valores são iguais, adentramo-nos perigosamente nos descampados do relativismo cultural e só nos resta limitar danos, tendo de lidar com esse tipo de sociedades (e com as comunidades já instaladas no nosso espaço) com o instrumental acomodatício e subserviente da “realpolitik”.

O realismo não tem uma história de sucesso.

Foi o facto de ver o mundo segundo este prisma que levou Henry Kissinger, em 1977, a garantir que “hoje, pela primeira vez na nossa história, enfrentamos a dura realidade de que o desafio do comunismo é infindável” pelo que os "desafios revolucionários contra estados comunistas são pragmaticamente imprudentes porque bloqueiam o caminho para um ajustamento "realístico" sobre a resolução de disputas regionais"


Reagan, escandalizando o “establishment” realista, mandou às malvas as precauções "realistas", catalogou o mundo comunista de “Império do Mal” e forçou-o a entrar num desafio que conduziu à sua implosão.


Hoje é o apaziguamento realista que faz com que alguns países da Europa e a actual esquerda eurábica achem que o inimigo a conter são os EUA e não os actores agressivos de outros espaços civilizacionais.

A suprema ironia é que, antes do 9/11, a Administração Bush era tudo menos wilsoniana, (ao contrário de Gore que assumia o internacionalismo idealista americano). Quem quiser rebuscar a imprensa da época recuperará o “berreiro” que se fez ouvir na Eurábia quando Bush, ainda antes de ser Presidente, admitiu a possibilidade de retirar dos Balcãs. A acusação que fazia manchetes era a de que a América estava a caminhar para um perigoso isolacionismo fugindo às suas responsabilidades de única potência capaz de colocar ordem no SI.

Agora o berreiro é no sentido inverso, mas no fundo haverá sempre berreiro .


Embora os realistas agora achem que antes do 9/11 a política da América era mais razoável e “benigna”, isso não a livrou de sofrer um 11 de Setembro, e inúmeros outros ataques na década anterior. E há que reconhecer que assim que passaram a ser “arrogantes”, afastaram o campo da batalha do seu território e dos seus civis, obrigando o inimigo a dar batalha no terreno escolhido pela América.

Por outro lado, não deixa de ser paradoxal que os recém convertidos a um realismo hemiplégico, se abstenham de tecer considerações sobre a natureza de regimes como o iraniano, sírio, russo, chinês, etc., mas se derramem em abundantes juízos de valor sobre questões internas e ideológicas, dos EUA sendo particularmente acerba relativamente aos chamados “neocons”.

CN disse...

"Fukuyama demonstrou que as democracias liberais tendem a não se guerrear entre si pelo que, em teoria, se a democracia liberal se alargar a espaços cada vez maiores, diminuirão as probabilidades de guerra no SI. "

Não demonstrou não. O proprio FUuuyama abandonou o barco idealista.

Guerras democráticas:

- Napoleão
- Guerra Civil Americana
- Canal Suez
- A Primeira Guerra Mundial

CN disse...

"Além disso a democracia foi “exportada” à força para a Alemanha e para o Japão,"

A Alemaha já era constitucional há muito tempo (voto universal desde 1871). A Austria também o tinha. Com o poder descentralizado de forma federal.

O Japão já tinha um orgão parlamentar.

Ambas as Nações nas suas regiões, contam-se entre as que mais antigas, culturais, etc...

CN disse...

"considerações sobre a natureza de regimes como o iraniano, sírio, russo, chinês, etc.,"

Oh, meu Deus, quando é que deixam as populações tratar dos seus regimes...

E depois, uma coisa é criticar, outra é plnatar bases

O-Lidador disse...

Caro cn, se não acredita na correlação entre democracia liberal e paz, pode você próprio fazer as contas.
Os dados estão disponíveis.
As democracias liberais tendem a não entrar em guerra ENTRE SI (note as maiusculas) limitando os conflitos a gesticulações que, tanto quanto me lembre, assim a voo de pássaro, nunca descambaram em guerra.
Não se pode garantir que seja uma lei escrita em pedra, mas até ao momento tem uma razoável confirmação.
É capaz de provar o contrário?

Ah, e não vale chamar "democracia liberal" à Alemanha de Bismarck, ou ao Império napoleónico...

É que quando garante que a Alemanha nazi e o Japão da "esfera de coprosperidade" eram democracias liberais, pergunto-me se estamos a usar os conceitos com igual significação, ou se avançamos pela novilíngua.

"Oh, meu Deus, quando é que deixam as populações tratar dos seus regimes..."

Quando isso não nos aquecer nem arrefecer.
Quando o nosso interesse não estiver em causa.
Não é uma questão moral, não há aqui imperativos categóricos. Não se pode deixar a população do Irão tratar do seu próprio regime, porque está em causa o interesse do espaço civilizacional a que pertencemos.
Você também.
No dia em que um aiatola lhe apontar um míssil à cabeça, verá que não é a mesma coisa...

O-Lidador disse...

De resto é paradoxal que o cn revire os olhos e exclame "Oh, meu Deus, quando é que deixam as populações tratar dos seus regimes...", porque com este blogue está justamente a fazer o contrário:
Está numa causa internacionalista por uma ideia e está a meter-se num assunto que só diz respeito à população americana, segundo o seu próprio racional.

Como resolve o paradoxo, cn?

Quizzer disse...

"Fukuyama demonstrou que as democracias liberais tendem a não se guerrear entre si pelo que, em teoria, se a democracia liberal se alargar a espaços cada vez maiores, diminuirão as probabilidades de guerra no SI. "

"Não demonstrou não. O proprio FUuuyama abandonou o barco idealista."
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Não diria que abandonou o barco idealista. Na verdade, Fukuyama nunca esteve nele. Mas, neste assunto, a palavra chave não é "democracia" (os regimes democráticos são tão propensos a guerras como quaisquer outros), mas "liberais".